O PRESENTE DA MAMÃE ok
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em bem clareou o dia, Joana martelava na cabeça do marido, dizendo
que aquele domingo deveria ser especial: o mais incrementado de todos.
Justamente porque se tratava do Dia das MÃES, marcado e sacramentado no
calendário da sala por um círculo vermelho
para ninguém esquecer o frango com batatas, a maionese,o pudim de leite, o
churrasquinho na brasa e o presentinho no capricho.
Teria que ser o almoço do século, com toda a família reunida; álbum de fotografias passando de mão
em mão e histórias antigas da época do onça.
A vó Etelvina estaria no canto da mesa junto com tia Leonor e a galera da
terceira idade, só esperando o momento certo de desenterrar o passado do fundo
do baú.
No Dia das Mães valia tudo: Miltinho
que nunca se deu com Emílio; Joana que aproveitava a oportunidade para colocar
as fofocas em dia; Isabel que dava pitaco na vida de Adriana, tia Lídia que estava
com diabetes e tio Guilherme com artrite...
Afinidades não tinham mais nenhuma,
apenas a obrigação de estar presente e com um presente.Joana gastou tudo o que
tinha e o que não tinha para fazer bonito. Embonecou-se no maior luxo e decorou frases de
amor que pudessem resumir o significado da palavra MÃE em sua vida.Porém como
nunca se entenderam, um pacote enfeitado falaria muito mais que qualquer
discurso.
—Um jogo de copos. É o que tem para
hoje!
—Eu ganhei uma fruteira de Tuquinha.
—Não é fruteira, Tia Nádia, é saladeira. Tem muita diferença. É só
pesquisar no Google.
—Eu não sou dessa época, Lidiane. Sou da época do dicionário
Aurélio e da Enciclopédia Barsa.
—Se não é dessa época, o que a senhora está fazendo nesse almoço de domingo com o
prato lotado de frango, maionese e farofa? Viajou no túnel do tempo para chegar até aqui, foi?
Estava tudo combinado: enquanto Emílio
bronzearia na churrasqueira, Joana deixaria a mesa posta com a maionese e a
farofa, o pãozinho torrado e um “sambinha maroto”tocando para alegrar o
ambiente.E foi exatamente assim.
O almoço foi maravilhoso, apesar dos
assuntos serem os mesmos do ano passado: a reforma da casa, o consórcio do
carro, a compra do terreno em Santos, a declaração do imposto de renda, o plano
de saúde que estava uma fortuna e o novo presidente do sindicato que usava uma
peruca alaranjada toda torta comprada na Shopee.
Lá se foi mais um domingo do Dia das
Mães e de madrugada, enquanto Emílio tentava dormir sossegado, começou a
lembrar-se daquele tradicional almoço, com toda a sua família reunida.Lembrou-se da infância simples, da sua mãezinha
humilde, do arroz com feijão feito com muito carinho e de repente caiu a ficha:
Dona Jacira não estava mais entre eles.
Há quanto tempo, meu Deus!Desde que
ele, ainda jovem, havia discutido em casa e ido embora de lá, remoendo-se de tanta mágoa.Onde estaria aquela
mulher forte, que sendo pai e mãe ao mesmo tempo, conseguiu lhe dar o melhor de
si? Ela não estava no tão glorioso almoço do Dia das Mães porque talvez nem
soubesse mais que era o seu dia.
—Que saudades, mamãe! – choramingou.
Emílio não conseguiu dormir em paz e sem
dizer uma palavra a ninguém deixou um bilhete na cabeceira da cama de Joana,
explicando-lhe que não tinha mais sentido passar o segundo, terceiro ou quarto domingo
do mês longe de sua mãe por conta de brigas do passado.Foi quando dona Jacira, com
muita dificuldade, ouviu passos no quintal e abriu a janela do quarto para
enxergar melhor.
—Quem será a essa hora, meu Deus?
Assim pôde ver de perto o rostinho ainda infantil de Emílio, voltando para
seu colo como se nunca houvesse partido daquela casa.
— Estou aqui, mãe. Vim comemorar o seu
dia.Não somente esse, mas todos os outros que virão! Nunca mais irei lhe deixar
tão só!
Dito isso, se abraçaram em lágrimas.
— Entre, meu menino. A casa ainda é sua!
O coração de dona Jacira ficou em festa
porque aquele era o momento mais esperado de sua vida: um Dia das Mães atrasado, porém, comemorado com muita emoção
junto ao seu melhor presente.



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