O QUARTO SILENCIOSO

 

                        

Quando Guilherme foi convidado para tomar conta de um sítio simples e sem recursos  no interior de São Paulo, ficou indeciso porque na verdade sabia que sua esposa Ivete não viveria longe do conforto da capital.

Ela aposentou-se há mais de dez anos, deixando de lecionar e daí em diante nunca mais foi a mesma pessoa.

Aos poucos  se transformou  em uma mulher amarga, entristecida e repleta de piripaques, com o estranho costume de trancar-se num quarto com seus livros com seus livros antigos apenas para fugir do tédio.

Havia perdido o gosto pela vida ; dizia-se doente e passada para trás como se fosse a velha professorinha que não falava mais a linguagem da galera moderna. Seus diplomas estavam fajutos demais, amarelados pelo tempo e não tinham o mesmo valor diante de tanto progresso.

Ninguém lembrava dos engenheiros, médicos ou prefeitos que havia ensinado a escrever o próprio nome quando ainda eram crianças cheias de teimosia?

E lá estava Ivete com suas horas livres, momentos vazios que aproveitava para reclamar do sol e da chuva, do vento e principalmente da falta de cultura do país. Queria mesmo envelhecer em paz num cantinho sossegado da casa, envolvida em  suas lembranças mais profundas .

Guilherme tinha certeza que os ares do campo fariam um milagre na vida daquela mulher que não conseguia encontrar um bom motivo para ser feliz  e fazia de tudo para lhe agradar.

Mandou até reformar um quartinho dos fundos da cada para que guardasse todos os seus livros preferidos.

Ajeitou também uma poltrona florida no canto direito e uma escrivaninha para que pudesse colocar os retratos dos alunos do ensino médio, os cartões de Boas Festas e os bilhetinhos com palavras carinhosas.

Ivete nem se importou. Para ela a vida não tinha mais nenhuma graça. Aquele lugar não era o seu; aquelas pessoas não lhe diziam nada e estava a beira de um ataque de nervos.

- Só você Guilherme, só você para me atirar nesse fim de mundo. Aqui ninguém se interessa por livros e não tenho com quem compartilhar conhecimentos.

A cidade era distante dali e viviam praticamente isolados de tudo, sendo que a vizinhança mais próxima era uma gente humilde que trabalhava na lavoura.

Guilherme foi fazendo novas amizades e se sentia no dever de contribuir um pouco para a melhoria da comunidade. Mas Ivete não se importava com nada disso e exigia apenas uma mocinha para lhe ajudar na faxina da casa.

Mostrou os cômodos para Nininha , explicando que os livros deveriam ser limpos diariamente como relíquias e colocados em ordem alfabética para facilitar o manuseio.

Nininha fazia de tudo com muito cuidado, demorando horas para ajeitar os volumes um ao lado do outro, sob a supervisão da patroa.

- Este quarto é tão bonito, dona Ivete! Só é um pouco estranho porque está sempre trancado com um cadeado na porta.

            - Tenho livros caríssimos e não quero que estraguem, menina.As pessoas daqui não estão acostumadas com esse tipo de cultura.

Até que um dia Dona Ivete quase morreu do coração quando não encontrou um  romance  que costumava ficar na pontinha da prateleira. Seus olhos caíram para cima de Nininha , que decerto não deveria ser tão honesta assim,  roubando o livro na maior cara de pau.

Andou de um lado ao outro só pensando em um jeito mandar a espertalhona devolver imediatamente o que não lhe pertencia.

- Benzadeus, quanto atrevimento! Se quisesse emprestado era só me pedir, menina atrevida !

Foi quando Nininha lhe pediu mil desculpas e envergonhada contou que havia se atrapalhado na hora da limpeza, mudando o livro de lugar. Que achava todos os livros muito bonitos com suas letras douradas, mas que para ela não faziam sentido porque na verdade não sabia ler.

Nesse momento a professora Ivete sentiu-se ainda mais envergonhada, pois percebeu que aquele quarto tão repleto de cultura, era mudo e egoísta, pois não havia ensinado nada a ninguém.

- Sinto que ainda tenho  o que aprender e o que ensinar.

Abraçou Nininha com carinho e juntas abriram as cortinas aveludadas para que a luz do conhecimento pudesse expandir, contagiando a todos com entusiasmo e alegria!  Aos poucos as pessoas foram se aproximando e logo estavam folheando os livros , com direito a bolinho de chuva e refresco de goiaba. Tinham muito  que conversar  e acrescentar. Cada um com a sua cultura, oferecendo um pouco de si para que juntos escrevessem uma nova história. A partir daquele dia o quarto silencioso da professora Ivete transformou-se em uma sala de aula onde Nininha e várias outras pessoas da redondeza aprenderam a escrever e a ler. Porque o conhecimento precisa ser compartilhado, tocado, sentido, compreendido , pois pertencem a todos os que nele buscam a verdadeira transformação.  

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