Crítica ao conto A lenda da Meia-Noite


    


    Seu conto “A Lenda da Meia-Noite” é de uma delicadeza brutal; desses textos que tocam, não pela surpresa, mas pela verdade que carregam. A história do menino que espera, com fé infantil e olhos brilhantes, por um mundo melhor é dolorosamente real, ainda que envolta em lirismo e esperança. Você conduz o leitor por uma travessia emocional que começa no encantamento e termina na frustração, espelhando de forma sensível o que tantas crianças vivem, acreditando nas histórias que ouvem porque nelas encontram abrigo, calor e sentido.

    A imagem do menino com frio, aquecido apenas pelas páginas gastas de um livro, já diz muito sobre sua solidão e mais ainda sobre sua imaginação. Ele não sabe ler, mas lê o mundo com os olhos do coração, escutando as rimas que a mãe inventa e se agarrando à ideia de que a virada do ano trará algo novo, justo, bom. Seu desejo de ser Rei por um instante, de ter um carrinho, de brincar nas praias, não é capricho, é o reflexo de um afeto que falta, de uma infância que, embora sonhada, não lhe é permitida.
    A cena final, em que a cidade explode em fogos e ele permanece imóvel, abraçado às páginas rasgadas, é devastadora. Porque mostra o abismo entre a festa e a exclusão, entre a celebração coletiva e a solidão particular. A “lenda” que a mãe contava era uma forma de amor, sim, mas também um consolo impotente diante de uma realidade que insiste em não mudar. O menino esperava um milagre à meia-noite, mas o novo ano chegou como sempre chega: para alguns, promissor; para outros, apenas mais uma noite fria.
Você escreveu uma história que arde sem gritar, que emociona sem precisar de exageros. Há poesia na dor, há beleza na esperança frustrada e há uma mensagem que ecoa bem além da virada de ano. Seu conto é um lembrete necessário de que, para muitos, os desejos de “Feliz Ano Novo” soam vazios, porque não há espaço para o novo enquanto o velho abandono persiste.
 
    Parabéns por dar voz a esse menino. Parabéns por transformar uma lenda em verdade sensível e tão necessária.

                                                                    Editora Arame Farpado 
 

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