A MALA PERDIDA



Z

uleika não tinha um pingo de paciência com a sua tia aposentada e tudo nela lhe irritava profundamente. Tá certo que era uma boa mulher, muito honesta e prestativa com a família, mas falava pelos cotovelos e reclamava da própria sorte o dia inteiro. O seu assunto preferido era o colesterol, o reumatismo e a cãibra que ela sentia nas pernas todas as vezes que voltava do forró do Alonso.

Só que de repente, assim do nada, Titia Dodoca deu sorte em um sorteio da Paróquia e ganhou de cara uma viagem com acompanhante para Aparecida do Norte com direito a torta de sardinha e refrigerante diet.

—Eu não mereço tanto! – gritava – Viva! Só preciso de um bom acompanhante.

Nisso todo mundo sumiu do mapa, apenas para não lhe fazer companhia naquela cilada e restou  somente a sua sobrinha preferida: Zuleika.

Que dor de dente! Isso sim era problema. Tia Dodoca apareceu logo cedo com as passagens na mão, chorando rodelas de cebola.

—Você vai viajar com a titia, Zuzu? Por favor, diga que vai.

Antes mesmo que pudesse dizer um NÃO  bem redondo, ela fez uma lista descrevendo em detalhes seu estado de saúde delicadíssimo.

Não viveria até o próximo final de semana e com certeza a sua consciência não lhe perdoaria jamais.

—A titia está muito “doentinha”. Não me faça essa desfeita, hein.

Pronto, bingo! Zuleika, mesmo bicuda, arrumou as malas impecavelmente como tia Dodoca exigiu e partiram para a rodoviária antes que o dia clareasse. A menina não se conformava em ter que carregar quilos de muamba. Numa bolsa de couro tinha a blusa de lã, o gorro de tricô, o moletom vermelho, a pasta de dente, o pente fino, o pote de goiabada, o creme de vatapá, o cachecol, o travesseiro de pena de ganso...

Na outra; a camiseta regata, a bermuda floral, o par de chinelos, a caixa de ameixa seca e pra matar a pau ainda trazia um pote de frango com maionese só para beliscar no caminho.

O ônibus deu partida, enquanto tia Dodoca, toda deslumbrada, tirava mil fotos do lugar:

—Que paraíso! Estou nas nuvens! Ê lugar! Não mereço tanto!

Após duas horas de viagem o motorista resolveu parar em uma cantina para um lanchinho básico e bem reforçado.

Zuleika sentia muita vergonha do seu jeito caipira e preferiu ficar bem longe como se fosse uma desconhecida, e aproveitando ao máximo o deslumbramento da tia, fez questão de esconder-se dela atrás da mureta do toalete.

 —Que mico! – pensava - Tia Dodoca é um desenho animado!

Estava tão preocupada em armar um plano para livrar-se da própria tia que não percebeu o destino daquele ônibus que saia do terminal e correu afobada, tentando lhe alcançar.

Rapidamente sentou-se na primeira poltrona, ainda com o copo de refrigerante na mão e quando olhou para os lados, cadê? Tia Dodoca não estava sentadinha no mesmo lugar com aquela cara de paisagem que somente ela tinha igual.

 — E agora? Perdi a mala sem alça! - resmungou.

Ela havia evaporado com todas as malas, muambas e principalmente com o precioso pote de frango com maionese! Decerto estaria perambulando em algum lugar do mundo, sem destino certo, perdida e desmiolada...

 Zuleika soltou um grito de desespero: por onde estaria vagando tia Dodoca, hein??!

—Ohhhhhhhh, my God!

Levantou-se feito um raio certeiro, exigindo que o motorista parasse o ônibus na mesma hora e gaguejando muito, de puro nervoso, explicou o sumiço da “mala sem alça”, chamada de tia Dodoca.

 — Ela deveria estar plantada aqui nesta poltrona com os seus apetrechos de viagem, mas evaporou no ar! – explicava. - De certo foi sequestrada.

Foi pensando no seu jeitinho caipira, na sua carinha de fuinha, nos seus olhos de coruja assustada... Por um instante lembrou-se também de tudo que a tia esquisita havia lhe proporcionado de bom; o passeio no parque quando ela

ainda era uma garotinha, o jeito amoroso com que lhe ajeitava os cabelos embaraçados pelo vento, a voz rouca e cansada...

— Quando tive sarampo ela cuidou de mim. Quando tive diarreia... Que saudades de tia Dodoca! – gritava, totalmente descabelada.

Sentiu que acima de todas as suas lamúrias, ela era uma pessoa muito especial e não queria perder a tia na estrada, feito uma Maria Ninguém, vítima do descaso de uma sobrinha ingrata.

Ficou desesperada explicando para quem quisesse ouvir quem era tia Dodoca. Ainda dizia:

— Ela é uma mulher desde tamanhinho assim, mas alegre, falante, extrovertida, bacana e maravilhosa! Quando eu tenho febre ela costuma passar a noite comigo. Ela sabe fazer um chá de camomila que é uma beleza. É a única que adora me levar ao médico quando fico doente. É uma mãe para mim. Ninguém viu tia Dodoca?

Debruçou-se na poltrona do ônibus e chorou copiosamente enquanto tentavam lhe consolar também com lágrimas nos olhos.

— Calma querida. Vamos encontrar sua tia. - diziam.

— Isso que é amor. Que chamego com a titia. – admiravam.

Até que de repente, ao olhar para o lado de fora, pôde perceber aquela pessoinha familiar ainda sentada na varanda da cantina, saboreando lentamente uma coxa de frango com maionese sem entender o vexame que Zuleika estava dando após entrar no ônibus errado.

— Tia Dodocaaaaa! Não se mexa, me espera aí!

A galera delirou, aplaudindo de pé o carinho da sobrinha com a própria tia. Quanta emoção!

— Isto que é amor! Coitada, a pobrezinha entrou no ônibus errado e pensou que havia perdido a tia. Que menina amorosa!

Todos comentavam, emocionados ao presenciarem a cena comovente digna de uma foto histórica. Zuleika enxugou o rosto umedecido pelas lágrimas e já morta de saudade, abraçou aquela mulher como nunca havia feito antes, muito feliz por ter reencontrado tia Dodoca, após tantos desencontros diários!

 

 

 

 

 

              

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