O CATADOR DE PAPEL
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outor Celsinho era um médico muito
conhecido em sua cidade; bonito, rico e talentoso, mas com a estranha mania de
catar qualquer papel diferente que encontrasse dando sopa por aí.
Poderia ser aquele
papelzinho sujo, amarrotado num canto da calçada que mais que depressa abaixava
sem cerimônia, fuçando rapidamente só para ler o que estava escrito.
Parecia louco e
não conseguia disfarçar tamanha curiosidade, não sossegando enquanto não
abrisse o embrulho, que eram propagandas de cartomante, vidente ou mãe de
santo. Outras vezes eram anúncios mirabolantes de casas comerciais, lojas,
açougue, padaria ou mercado.
Lia cada um deles e depois enfiava no bolso da calça, levando para casa um bolo de baboseiras.
Dona Isabel queria
morrer com sua “façanha”, achando mesmo que o marido já estava ficando caduco
antes da hora:
— Mania de gente boba, isto sim!- dizia. –
Enlouqueceu de vez!
Relevava aquela
esquisitice toda porque tinham dois filhos doentes e talvez fosse este o grande
motivo que fazia de Doutor Celsinho um sujeito estranho. Paulo e Marcos já
nasceram com problemas de saúde e passavam o tempo inteiro na cama, tomando
remédios e tristes da vida!
Ninguém se
conformava com a falta de saúde dos dois moleques que tinham um pai rico e
formado em medicina.
Só que doutor Celsinho conseguia curar de tudo, dor de estômago,
enxaqueca, bebedeira, mau humor, pressão alta,
úlcera nervosa, apenas não conseguia curar a própria sina, sendo que do portão
de casa para dentro era um simples pai indefeso diante da moléstia dos filhos.
Numa manhã chuvosa
resolveu dar um passeio até o parque para distrair um pouco as ideias,
refletindo sobre sua vida. Ele caminhou alguns passos, encontrando um papel sujo
de lama, todo amassado e caído no meio da calçada.
Ah, tava na mão!
Precisava saber o que estava escrito. E se fosse uma carta de amor, um trecho
de algum poema ou uma história engraçada? Rapidamente sentou-se no banco da
praça na maior curiosidade.
Era um anúncio sem
graça, escrito “a mão” por uma letra toda borrada por tinta escura. Anúncio de
um catador de papel “de verdade” que vivia de jornal, garrafa vazia e sarrafo
de madeira.
Doutor Celsinho sensibilizou-se com aquela situação e achou que podia ajudar o tal catador de papel. Fez um “apanhado” em tudo o que tinha no fundo do quintal, colocando dentro do seu carro importado e com o endereço
dentro da carteira. Sua casa ficava num
bairro distante dali, sem esgoto, sem água encanada e sem luz elétrica.
Já estava
escurecendo quando seu Guilherme o recebeu com um olhar ressabiado e pediu que
entrasse para negociar. Doutor Celsinho logo se apresentou, reparando nos
cômodos de madeira, na mesa comida por cupim, no guarda-louça feito por
caixotes e nas duas camas no cantinho da parede.
Então o pobre
homem morava ali e decerto tinha filhos também porque alguns brinquedos velhos
estavam amontoados dentro de um saco de pano. Seu Guilherme lhe explicou
comovido que Paulinho e Marcos eram a sua maior riqueza e ajudavam a catar
papel junto com o pai.
Doutor Celsinho
quase morreu do coração ao ouvir aqueles nomes tão conhecidos por ele. Tremeu
por dentro, lembrando também dos seus moleques que tinham o mesmo nome e idade.
Que coincidência,
meu Deus! Só que os filhos de seu Guilherme corriam de lá para cá cheios de
saúde, rindo alto de suas próprias travessuras.
Podiam saltar,
empinar pipa e jogar futebol. Talvez não comessem queijos, frutas da época,
doces requintados ou chocolates suíços, mas eram livres e felizes. Doutor
Celsinho abraçou aquele catador de papel, com os olhos inundados d’água.
Trocaria a sua mansão, o seu dinheiro e todo seu prestigio por um pedacinho do
céu, onde o endereço era exatamente o barraco velho do Seu Guilherme. Ele sim
era um homem feliz, muito rico e nem sabia.



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