O MENINO VIDENTE
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ona Francisca morava numa casinha
simples com quatro filhos e para cuidar de todos, tinha que “rebolar gostoso”,
mas era uma mulher de pulso firme e nunca deixou a peteca cair.
Foram criados como
os filhos do patrão e Peninha, seu moleque caçula sempre foi muito miudinho com
pernas finas e esfoladas de tanto subir na goiabeira.
Quase não abria a
boca e morria de medo dum pedaço de cinta que a mãe guardava atrás do armário.
Só que de uns tempos pra cá parecia esquisito, cheio de mistérios e não queria
ficar sozinho um minuto sequer.
Enquanto dona
Francisca fazia os afazeres domésticos, ficava “enrabichado” debaixo de sua
saia, feito bala de goma
— Que menino bobo!
- resmungava, ordenando que fosse brincar no terreiro. - Vá, vá, me deixe,
garoto!
Porém Peninha
começava a chorar dizendo que não queria sair do seu lado de modo algum. Nem se
importava com o pedaço de cinta e poderia até lhe bater (se quisesse), porque
sentia muito mais medo dos “fantasmas de branco” que perambulavam por aí.
Cruz Credo! Se
Dona Francisca já era mística, cheia de badulaques no pescoço e medalhinhas da
sorte, não teve dúvidas: seu menininho magrelo era um ser iluminado, um vidente
ou talvez um SANTO.
De repente tudo mudou; não demorou muito para que fizessem fila na sua porta querendo apenas uma consulta com “Mestre Peninha”, que estava todo perfumado por incenso, elegantemente deitado numa poltrona confortável, doada por um comerciante rico. Queriam saber tudo: se a mulher ganharia na loteria, se faria sol ou chuva no final de semana, se arranjaria um namorado...
—Mestre Peninha me
cure da hemorróida!
—Mestre Peninha,
por onde andarás o meu guarda chuva florido?
—Mestre Peninha,
prosperarei na quitanda?
Peninha resmungava
de raiva porque não conseguia enxergar nada disto, apesar de que via o tal
fantasma branco acompanhar cada pessoa.
Às vezes era mais de um. Uma turma de fantasmas!
Dona Ritinha tinha
certeza que era o sogro falecido. Seu Almir se arrepiou todo dizendo que se
tratava do tio português que havia morrido na guerra e Peninha não dizia nada,
pois não tinha tempo nem para respirar.
Ganhou tanto
presente que sua mãe distribuía para as outras crianças e o restante guardava
num caixote velho; eram livros de magia, turbantes de cetim, velas, incensos,
medalhas, meias de seda, patuás... Até um frango preto empanado!
Sua fama correu
por toda a redondeza e comentavam numa só voz que aquele menino trazia sorte,
muita sorte.
—Bendito Mestre
Peninha!
Rapidamente
construíram um Altar para que pudesse ser colocado e tocado durante as 24 horas
do dia.
Conta a famosa
lenda que Mestre Peninha curou uma gastrite aguda, um bico de papagaio, uma
enxaqueca, uma crise de nervos e mal olhado, sem cobrar um tostão. A galera
gritava seu nome enquanto ele continuava rodeado por velas de todas as cores:
— Mestre Peninha ore por mim!- choramingavam.
Ele olhava,
faiscando pelas ventas:
— Que raiva! – pensava.
Queria mesmo subir nas árvores, correr atrás das galinhas do quintal, chupar laranja deitado na rede e pescar no brejo.
Só que sua vida
tinha mudado e nem podia mais usar chinelo de dedos. Agora era uma sapatilha
dourada com um bico de cetim na ponta.
— Mãe, eu não sou
bailarino...
— Mas é um ser
transcendental, moleque. Talvez um primo do ET de Varginha! Quem sabe, hein?
Só que ele mais
parecia uma empadinha embrulhada para viagem com sua túnica cintilante que lhe
torrava o couro de tanto calor.
— Levita, Mestre
Peninha... Voa com seus poderes!
— Quero ver o
Mestre andar sobre as águas!
— Multiplica a
minha garrafa de pinga, Mestre Peninha!
Mestre Peninha não
mexia um olho, só de raiva.
— Me poupem,
cambada de maluco!
Até que numa tarde
enlouquecida, Doutor Jair Gomez bateu palmas em sua porta, pedindo uma senha
para se consultar com o menino vidente. Aguardou por doze horas e quando chegou
a sua vez, apenas levantou uma placa com algumas letras coladas:
— Me diga garoto o
que você consegue enxergar aqui...
Mestre Peninha foi
taxativo e disse que só conseguia ver vultos esbranquiçados. A galera delirou,
acreditando que o doutorzinho estivesse entupido de acompanhantes do Além.
— Deve ser o
fantasma de Maomé... - gritavam, em delírio.
—Ou o Fantasma do Imperador Romano...
Então Dr. Jair
sorriu aliviado por saber que não estava diante de um sabichão curandeiro.
—Mestre Peninha,
você não é vidente coisa nenhuma. Precisa apenas usar óculos, meu filho!
— Jura mesmo? - soltou uma gargalhada, feliz. - Que notícia maravilhosa!
Foi um reboliço terrível
e as pessoas rasgaram suas senhas, indo embora dali, chutando as latas.
—Picareta!
Desconfiei desde o início!
—Vai arder no fogo
do Inferno!
— Mestre Peninha,
tu és um falso!
Deste dia em diante
o menino vidente estava muito mais feliz, sem consultas e sem fantasmas.
Somente com os óculos novos.
No seu mundo de
fantasias continuava a ser mestre, mas em artes, sempre pendurado no último
galho da goiabeira, apenas para bisbilhotar o quintal dos outros.
Na verdade Peninha
nunca curou ninguém, mas com certeza o povo tinha o peito banhado em fé, fazendo
suas próprias curas e transformando esta energia no milagre da VIDA.



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