Domingo de visita



            O domingo de visita naquele hospital era considerado o dia mais bonito, como uma caixinha de surpresas; onde estava depositando momentos de medo, solidão e saudades!

Desde cedo que certas dores davam lugar a euforia.

Um lenço limpinho se estendia nos leitos, água fresca nos potinhos de plástico e bijuterias espalhadas pelos cantos. Nem parecia mais um hospital. Rostos sofridos pelo tempo já sorriam e muitos transitavam com dificuldade pelos corredores, observando atentamente o relógio da parede. Alguns haviam chegado há pouco tempo, mas outros faziam parte integrante dos armários, dos remédios e das janelas opacas que bloqueavam a luz da rua.

Ela era uma mulher miúda de olhos arregalados e jeito brejeiro que trazia todos os documentos dentro de um saquinho de pão. Usava uma trança fininha que escorria pelos ombros e ia até a cintura.

Não falava quase nada e às vezes se recusava a fazer repouso. Só sabia assinar o seu primeiro nome, mas mesmo assim contava as noites com um sinal feito por um grampo, na cabeceira da cama.

Eram muitos sinais e deixavam seu semblante pálido, cada vez mais triste. Levantou-se cedo naquele domingo de visita e sentiu algo diferente, como se alguém especial fosse lhe ver. Ajeitou os chinelos com carinho e foi diversas vezes até a porta do quarto com o coração apertado.

Poderia ser o seu filho, a vizinha do lado ou um desconhecido qualquer. Deu muita risada com as enfermeiras, pediu um vasinho de flores e quis arrumar pessoalmente cada detalhe.

Sem falar pra ninguém, banhou-se com uma loção de flores do campo. Abriu a maleta de couro e procurou uma roupa de festa, que pudesse expressar toda a sua alegria. Só que as horas foram passando e já estava anoitecendo quando resolveu se deitar.

         - Esperando alguém? - perguntaram.

Fechou os olhos em um soluço amargo e preferiu calar-se. Nunca gostou do domingo de visitas. Ninguém aparecia para lhe visitar.

Ela cobriu a cabeça com o lençol e chorou baixinho.

- Por onde andará o meu filho tão querido? Quanto tempo!

De repente uma LUZ forte penetrou por tudo e fez com que sorrisse:

- Você demorou a chegar. – murmurou, feliz. - Agora, me leve com você!

- Minha mãezinha querida, eu vim lhe buscar!

Um anjo iluminado lhe estendeu as mãos e aquela mulher miúda sentiu-se forte, porque sabia que não havia se enganado. A sua visita tão esperada demorou um pouco, mas trouxe consigo a liberdade de ir embora dali para sempre!

Se você um dia tiver um tempo faça uma visita para alguém. Pode ser ao seu filho, a vizinha do lado ou simplesmente a um desconhecido.

 

“Todos os dias eu lhe espero

Com os olhos perdidos ao vento,

procurando a felicidade

que se perdeu com o tempo.


Se ontem fui sua mãe

já hoje não sei quem sou

e o teu retrato me persegue

pelos caminhos onde vou


Por que me deixou aqui

 feito um embrulho de presente

se esta não é a minha família

 e me encontro tão carente


Não quero lhe pedir muito,

 e se não tiver ocupado,

traga-me de volta o sorriso

para que eu me sinta amado

 

E se depois desta visita rápida,

 num domingo qualquer

for embora para sempre

 sem um aceno sequer

 

Descansarei eternamente

no leito do seu olhar

como que se um dia pudesse

para casa regressar

  

Não quero grandes riquezas

nem tampouco, ilusão

pode ser apenas um abraço

que me aqueça o coração!

 

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