O fã número 1
Quando Joelma encarava aquele traste de
pijama se despreguiçando todo no sofá tinha vontade de lhe dar uma
vassourada no cangote e depois sumir do mapa para sempre.
- Aí, Quiquinho, que dureza, hein! Toda noite
quando eu chego do serviço você está arreado. Preguiçoso!
-Ô Mozão, a casa tá um palacete! Já arrumei
tudo: já lavei, cozinhei... tô morto! Você não tem piedade de mim, minha patroa?
Onde estava com a cabeça em se casar com um
“thothoba” do tipo de Quiquinho que só servia para lhe servir?
- Bem que minha mãe tinha avisado que esse
Quiquinho não tava com
nada! Meu pai já falava, meus irmãos e toda a minha família, mas eu sou muito
idiota e não quis acreditar. Esse palhaçudo!
Para fazer uma graça ele ainda lustrava uma
panela daqui, encerava um assoalho dali e só não fazia a faxina geral porque andava
de braço dado com a preguiça.
-Ê Quiquinho, não fez nem a faxina, hein? Tá
louco! Tá morto, moído para o mundo, hein? Benzadeus, que azar o meu, que sina!
Na verdade Joelma reclamava de barriga cheia,
e bem cheia, porque a casa estava um brinco e cheirava à limpeza.
-Ô mozão, fiz tudo o que você queria: o
pudinzinho, o suco, a salada...
Ele não curtia ser o escravo do lar, porém
estava desempregado há dois anos e alguém tinha que sacudir a poeira e dar a
volta por cima do tapete. Mesmo assim Joelma não dava um pingo de valor,
achando que o rapaz não passava de um prego enferrujado.
- Aí, Quiquinho, só lamúrias! Que baixo
astral!
Namorar nem em sonho. Joelma trabalhava
fora, vivia cansada e com dor de cabeça.
- Hoje não, Quiquinho. Fica longe de mim. Quero descansar. Estou com dor de cabeça!
Todos os dias ela fiscalizava o ambiente da
porta da sala, reclamando que o seu sofá preferido estava totalmente ocupado
por aquele vulgo “desocupado”.
Não percebia que o jantar estava quentinho na
mesa, o chão brilhava e tudo estava perfeitamente bem.
Após servir aquela comidinha gostosa,
Quiquinho ficava na sua cola, matraqueando o tempo todo:
- A máquina de lavar pifou de novo! A panela
de pressão ta queimada no fundo e o preço da laranja subiu pela segunda vez
no ano. Onde vamos parar, meu chuchu?
Santa chatice! Joelma queria mesmo tomar um banho bem quente e “bum”, ir direto para cama. Não suportava mais o papo furado daquele homem cafona que insistia em usar um avental todo sujo de ovo e molho de tomate estragado.
Que culpa tinha Quiquinho se não arrumava um emprego
fora de casa, hein? Se já havia passado dos quarenta e na banca da feira o
verdureiro lhe chamava de titio...
Desde que foi mandado embora da firma morreu
para o mundo e se sentia um farelo humano. Guardou seu terno de tergal no baú e
fez de seu pijama velho um uniforme diário.
Ela fazia um sucesso danado com o seu programa no rádio e não tinha tempo para as lamúrias de Quiquinho que não passava de um verdadeiro tonto.
Logo ele percebeu que precisava reconquistar
urgentemente o coração endurecido de Joelma antes que levasse um toco
daqueles.
Então resolveu colocar para fora todo o seu
sentimento numa carta anônima, dizendo que era um homem apaixonado que fazia
tudo pela mulher ingrata.
Ela lia cada palavra com lágrima nos olhos nem desconfiando que a pobre vítima daquela bruxa só tinha um nome: Quiquinho!
O seu Quiquinho!
- Um marido assim tão devoto e competente é
um achado - pensava.
Ele passou a lhe escrever todos os dias e Joelma defendia a honra do pobre donzelo desamparado com unhas e dentes. Suspirava com seus botões, louquinha da silva para conhecer aquele príncipe encantado que dava o maior ibope ao programa.
Até que ela conseguiu marcar um encontro às
escondidas com o correspondente secreto e chegou em casa mais cedo, se
embonecando toda para a famosa “reunião de negócios”.
Um negócio que o marido já não conhecia mais
porque tinha falido.
Quiquinho fingia estar de morto esparramado no
sofá como uma sopa de minhoca. Disse que estava cansado e dormiria cedo só pra
variar.
- Sinto muito, mas não posso lhe acompanhar,
querida. Estou um caco!
Ela adorou e despedindo-se com um beijo na
testa do marido.
- Boa noite então, meu amor. Fique bem!
Estava em cima da hora e após estacionar o
carro numa quebrada desconhecida, aquele vulto se aproximou em câmera lenta , olho no olho com o peito quase explodindo de emoção. Que surpresa! Diante
dela estava Quiquinho com o mesmo jeito apaixonado de sempre, lhe estendendo os
braços num abraço e se apresentando como se fosse a primeira vez.
- Muito prazer, Quiquinho - sorriu, lhe
estendendo a mão.
Joelma, ao ver o marido quase morreu de
vergonha; pelo descaso, pelo deslize e pela traição.
Era o mesmo homem que lhe preparava uma comidinha gostosa todos os dias, arrumava suas roupas no armário e que não se importava em viver atrás das cortinas para que ela pudesse brilhar.
Ela lhe
abraçou muito mais forte, enxugando as lágrimas para enxergar melhor a sua alma
iluminada e lhe pediu perdão.
- Você é um homem de muito valor! – murmurou.
Quiquinho valia ouro. Era só conferir a
quantidade, o conteúdo e, principalmente, a qualidade daquele homem que mesmo
no anonimato abria as cortinas do seu coração para que a sua musa pudesse
brilhar cada vez mais como uma estrela cintilante.



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