O ESPELHO TRINCADO

 




    Paulinho sentia saudades do pai porque ele era um homem muito ocupado e todas às vezes que acordava bem cedinho para ir ao colégio, Seu Pedro ainda dormia esparramado no chão da sala.

    Era um sono pesado que lhe deixava de molho o dia inteiro, xingando qualquer um que fizesse um barulho diferente, ou lhe perturbasse as ideias. Dizia um palavrão cabeludo e não queria ver a luz do sol no rosto...E dona Janice ouvia tudo calada no mais puro silêncio, apenas para não incomodar o Santo Poderoso.

    Afinal de contas ele era o Poderoso  e sabia impor exatamente o seu lugar com profundo autoritarismo .Para quem não compreendesse o recado, um grito só bastava.

    O menino Paulinho foi aprendendo  com o paizão a conseguir as coisas no tapa e dentro da sua casa não havia espaço para os direitos de uma criança.Somente para os deveres:

    - Deve permanecer calado até segunda ordem.

    - Deve engolir a violência, o descaso e o poder  resumido numa única pessoa: Seu Pedro, um pai que só conseguia oferecer àquelas crianças o seu exemplo de vida.

   Depois que anoitecia  ele assobiava uma cantiga boêmia, despedindo-se da molecada com todo o cuidado para não amassar a camisa de linho.

    Era famoso por toda a vizinhança pelo seu jeito arrogante de ser.

    Por mais que Dona Janice sofresse, não tinha coragem de mudar esta história.E a opressão é uma forma de violência que ela também agride e deixa marcas na alma!

  Quando seu Pedro chegava de manhãzinha, com o corpo cambaleando, fumava um cigarrinho já com o copo na mão  só pra relaxar.

   Será que precisariam engolir aquela tirania ridícula que apenas humilha o seu semelhante?             Mesmo que este semelhante seja um filho porque se não pudermos ser bons para eles, não conseguiremos ser para mais ninguém.A escola da vida começa na nossa própria casa, com a nossa família.

          Até que Dona Janice ficou sabendo sobre o N.A ( Narcóticos Anônimos) e com muito medo de atiçar a sua ira deixou apenas um bilhete com o endereço anotado a lápis.

     Nele escreveu que o alcoolismo é uma doença e que Seu Pedro precisava buscar ajuda.Enquanto isto estaria morando com sua mãe na cidade de Jambeiro  para  pensar melhor sobre o assunto.

    No primeiro momento ele relutou; teve um chilique, socou a mesa, deu gargalhadas irônicas...Depois a fera foi amansando, dando lugar a um homem frágil e solitário.Não tinha mais ninguém naquela casa e apenas os retratos antigos poderiam ouvir suas lamentações.

        Passaram-se dias e noites.

     Como estariam Janice, Paulinho, Dorotéia, Francisco? A vida parecia não ter mais sentido sem a sua família. Os amigos de bar continuavam marcando presença, mas tudo era diferente.Começou a ficar relaxado, com o cabelo sujo e a barba sem fazer.Emagreceu alguns quilos e caiu de boca no gargalho.

        Chegou no fundo do poço.Sem mais nada, sem ninguém.

Enquanto isto Janice mantinha sua palavra: - Só volto se houver mudanças!

        As amigas deram o maior apoio, admirando a determinação daquela mulher.

     Apesar de morarem no mesmo bairro, nunca mais se viram.Dona Janice e Seu Pedro apenas se reencontraram na sua primeira reunião no N.A, onde ele chegou meio tímido, mas quando enxergou a mulher sentadinha num canto, sentiu-se amparado.Ela sorriu e ele também.

     Que alegria! Com certeza Seu Pedro conseguiria superar, porque ela o esperava de braços abertos somente para lhe mostrar um novo caminho.Não deveria ser fácil, mas estaria do seu lado para lhe amparar, se tropeçasse, lhe ensinando que vale a pena acreditar na vida e principalmente em si mesmo.

 

 

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