VIDA DE NOVELA ok
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V |
idigal era aquele homem “fino” que fazia gosto em ter sua marmita totalmente areada feito um espelho, só para depois ficar palitando os dentes bem de pertinho, olho no olho, cara a cara.
A peãozada da obra babava de inveja do tamanho do prato que o marditinho mandava para dentro do bucho, sem piscar os olhos, numa gula de dar
inveja! Ele se achava o bem sucedido do pedaço e tudo culpa de dona Amália, que
ainda servia uma sobremesa no capricho: laranja gelada, pão com mortadela e doce
de banana.
Ele não podia reclamar de nada, pois era um pedreiro de luxo, chique e muito bem tratado pela mulher. Vidigal sabia como ninguém dar o troco merecido para a sua sócia de plantão, comprando tudo o que ela mais queria:
—Quero um vestido novo, um brinco de pedras coloridas ou qualquer mimo que me faça feliz.
Para ele,
Amália não precisava de mais nada nesta vida.Tinha uma geladeira que fazia gelo
de verdade, uma televisão que pegava todos os canais só com uma palhinha de aço
grudada na antena e um tanquinho de roupa que era um verdadeiro escravo do lar.
—O que você quer mais da vida, muié? Deixa de ser gananciosa e atrevida. Dou de tudo. até o céu se me pedir e ainda faz firulas...
— Que Vidigal mais cafona! Não muda a resenha! – pensava com seus botões.
Assim que Vidigal cruzava a linha de chegada, ela corria para o quarto, fingindo-se de morta, gemendo de dor de cabeça.
—Hoje estou só o pó da “bagaça”! – gemia.
— Que zunzunzum é esse? Gente folgada! Muito barulho logo cedo. Já estou
cheia de tanta falação. Preciso descobrir o ocorrido e vai ser já!
— Nossa, que ousadia!
Vidigal ficava impressionado com tantos detalhes e se irritava com a empolgação de Amália, que estava mais alegre e saltitante.
Muitas vezes, chegou a subir no próprio armário apenas para escutar os últimos acontecimentos. Com os olhos fechados imaginava o dono daquela voz melodiosa, o rosto do filho mais velho ou o novo corte de cabelo do caçula.
—Ele cortou o cabelo na barbearia do Menezes. Agora deixou mais curto, a pedido da namorada.
— Final de semana vão para Santos. Que inveja! Eu não saio de casa pra nada e só ando com essas marmotas que chamam de roupa.
Vidigal já
estava desnorteado com aquela patifaria e exigia uma explicação.Onde estava a
sua Amália de antes, hein? Ora, coisa do passado. Ela era uma mulher moderna,
televisiva e antenada.Amália apenas imaginava as coisas e se Vidigal fosse mais
criativo, faria um furo na parede só para assistir de camarote o programa de
maior audiência da sua própria casa:
Era uma novela ao vivo e sem cor, porque não tinha nenhuma imagem.Muitas vezes Amália passou em frente da casa da vizinha, esticando o pescoço para gritar:
—Boa tarde, querida. Ontem foi o aniversário do seu avô que mora em Campinas, né? O avô Berico. Parabéns, hein!Mande um abraço!
Ninguém
entendia como aquela mulher sabia tantos detalhes assim.
—Eles curtem a vida numa boa! Ontem fizeram cachorro-quente com batata palha. Eu amo cachorro-quente e é tão barato, Vidigal. Coisa simples.
— Tá com desejo,
né? Falta do que fazer.
—Quer ir embora de casa? Pois vá, mas saia de fininho, sem fazer
barulho.Hoje vai ser o momento decisivo: eles vão brigar. Suzana tem um admirador secreto e Bruno descobriu tudo, mas eu ainda não consegui ouvir o nome do picareta.
—Não chora Amália. Se quiser, eu fico. Sei lá, a gente pode recomeçar do zero. Eu acho que ainda te amo e sei o quanto sofre por mim...
—Eu sabia que ele era um homem do bem! Um homem sensível, do signo de
touro e dono de um coração gigante! Ah, esse Bruno acabou com o meu
psicológico. Não tenho maturidade para isso. Esse sim é um homem de fibra.Mesmo
humilhado, foi lá e escancarou o coração para sua companheira, mãe de seus
filhos e o grande amor de sua vida.Inacreditável!
— Amália, nós temos tanta coisa em comum. Uma vida de verdade e
merecemos investir na nossa história. Que se explodam os “Barbosa”, os “Bezerra”,
os Silva...O meu romance é com você.
—Que lindas palavras. Parece cena de novela! Pode me dar outra chance, meu maravilhoso?
Foi quando o maridão não se conformou em perder sua esposa amada, assim, de uma maneira tão banal. Agarrou Amália com tudo e lhe atirou no assoalho, lhe pregando um beijo de língua.
—Que final feliz, Vidigal! Estou em choque.
Rolaram no tapete até o dia clarear. Vidigal estreou ali mesmo uma longa metragem produzida especialmente para maiores de 18 anos e a própria Amália lhe aplaudiu de pé.
—Vidigal, que emoção. Ainda ao vivo e à cores! Essa novela vale a pena ver de novo! –
suspirava feliz da vida — Quero bis e sem comercial, meu galã!



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