VIDA DE NOVELA ok



V

idigal era aquele homem “fino” que fazia gosto em ter sua marmita totalmente areada feito um espelho, só para depois ficar palitando os dentes bem de pertinho, olho no olho, cara a cara.

        A peãozada da obra babava de inveja do tamanho do prato que o marditinho mandava para dentro do bucho, sem piscar os olhos, numa gula de dar inveja! Ele se achava o bem sucedido do pedaço e tudo culpa de dona Amália, que ainda servia uma sobremesa no capricho: laranja gelada, pão com mortadela e doce de banana.

        Ele não podia reclamar de nada, pois era um pedreiro de luxo, chique e muito bem tratado pela mulher. Vidigal sabia como ninguém dar o troco merecido para a sua sócia de plantão, comprando tudo o que ela mais queria:

        —Quero um vestido novo, um brinco de pedras coloridas ou qualquer mimo que me faça feliz.

        Para ele, Amália não precisava de mais nada nesta vida.Tinha uma geladeira que fazia gelo de verdade, uma televisão que pegava todos os canais só com uma palhinha de aço grudada na antena e um tanquinho de roupa que era um verdadeiro escravo do lar.

—O que você quer mais da vida, muié? Deixa de ser gananciosa e atrevida. Dou de tudo. até o céu se me pedir e ainda faz firulas...

 —Me falta atenção, Vidigal.—Ah, não tenho tempo para tanta baboseira. Contente-se com os apetrechos que lhe dou. Apetrechos caros, hein? Só esse mês me valeu mais de cem horas extras...Pega leve no luxo!

 No começo do casamento, ela parecia encantada com as gracinhas de Vidigal, mas com o passar do tempo foi ficando triste e amuada, com um bico de dobrar a esquina.

          — Que Vidigal mais cafona! Não muda a resenha! – pensava com seus botões.

     Ela merecia um sujeito diferente; alguém para oferecer uma vida mais dinâmica com passeios divertidos e gargalhadas sapecadas de batatas fritas com sorvete de morango.Então passou a economizar o seu tempo com o maridão, evitando a sua cara de chuchu.

      —Vidigal me dá azias!

    Assim que Vidigal cruzava a linha de chegada, ela corria para o quarto, fingindo-se de morta, gemendo de dor de cabeça.

—Hoje estou só o pó da “bagaça”! – gemia.

     Numa noite daquelas, enquanto o pobre coitado se esgoelava no fogão, fazendo um mexidinho rápido para tapear a fome, Amália percebeu um barulho estranho vindo do fundo do quintal da vizinha, que era parede com parede.

— Que zunzunzum é esse? Gente folgada! Muito barulho logo cedo. Já estou cheia de tanta falação. Preciso descobrir o ocorrido e vai ser já!

         Quase quebrou o pescoço para conferir o acontecimento de perto.Ufa,tinha que descobrir de qualquer jeito o motivo de tantas risadinhas picantes que deixavam o seu ouvido arrepiado de curiosidade.

— Nossa, que ousadia!

         Pronto, virou fã de carteirinha da família Barbosa.Ela não fazia mais nada nesta vida,só de orelha em pé, com um saco de pipocas no colo, pronta para assistir a sua novela preferida: a casa da vizinha.Ali, de butuca, ela chorava e ria, se emocionando com a vida deslumbrada daquela mulher.

       —Não acredito que Suzana perdeu o emprego...— e chorava lágrimas de sangue — Ainda bem que tem um tio rico em Minas Gerais. É o tio Jaime, irmão da sua mãe. Ele é do signo de escorpião e muito ambicioso. Tem um lava-rápido em sociedade com o primo Juca, que é casado com Ester.

        Vidigal ficava impressionado com tantos detalhes e se irritava com a empolgação de Amália, que estava mais alegre e saltitante.

            Muitas vezes, chegou a subir no próprio armário apenas para escutar os últimos acontecimentos. Com os olhos fechados imaginava o dono daquela voz melodiosa, o rosto do filho mais velho ou o novo corte de cabelo do caçula.

—Ele cortou o cabelo na barbearia do Menezes. Agora deixou mais curto, a pedido da namorada.

 Ela fazia parte da família e sabia de cor o horário que jantavam, dormiam,brigavam e até namoravam.

— Final de semana vão para Santos. Que inveja! Eu não saio de casa pra nada e só ando com essas marmotas que chamam de roupa.

     Vidigal já estava desnorteado com aquela patifaria e exigia uma explicação.Onde estava a sua Amália de antes, hein? Ora, coisa do passado. Ela era uma mulher moderna, televisiva e antenada.Amália apenas imaginava as coisas e se Vidigal fosse mais criativo, faria um furo na parede só para assistir de camarote o programa de maior audiência da sua própria casa:

           —Ontem eles comeram pizza e a filha do meio cabulou aula em dia de prova. Um absurdo! Levou uma surra daquelas! Depois foi chorar no quarto da frente e daí não ouvi mais coisa alguma...— narrava.

         Era uma novela ao vivo e sem cor, porque não tinha nenhuma imagem.Muitas vezes Amália passou em frente da casa da vizinha, esticando o pescoço para gritar:

—Boa tarde, querida. Ontem foi o aniversário do seu avô que mora em Campinas, né? O avô Berico. Parabéns, hein!Mande um abraço!

        Ninguém entendia como aquela mulher sabia tantos detalhes assim.

     —Eles curtem a vida numa boa! Ontem fizeram cachorro-quente com batata palha. Eu amo cachorro-quente e é tão barato, Vidigal. Coisa simples.

com desejo, né? Falta do que fazer.

     Por mais que Vidigal esperneasse de raiva, Amália não perdia um capítulo da trama.Ele até prometeu ir embora de casa, mas ela nem se importou.

—Quer ir embora de casa? Pois vá, mas saia de fininho, sem fazer barulho.Hoje vai ser o momento decisivo: eles vão brigar. Suzana tem um admirador secreto e Bruno descobriu tudo, mas eu ainda não consegui ouvir o nome do picareta.

         Enquanto Vidigal arrumava suas trouxas, com lágrimas de cebola escorrendo pela cara, dona Amália nem piscava, com o ouvido colado na parede. De repente ela começou a chorar desesperadamente, aos prantos:

        —Não chora Amália. Se quiser, eu fico. Sei lá, a gente pode recomeçar do zero. Eu acho que ainda te amo e sei o quanto sofre por mim...

      —Vidigal, deixa de ser otário. Estou chorando de emoção. O amor é lindo! Ele perdoou Suzana.Meu Deus, que loucura! Mal posso acreditar!

 Nisso correu para os braços de Vidigal, soluçando: 

—Eu sabia que ele era um homem do bem! Um homem sensível, do signo de touro e dono de um coração gigante! Ah, esse Bruno acabou com o meu psicológico. Não tenho maturidade para isso. Esse sim é um homem de fibra.Mesmo humilhado, foi lá e escancarou o coração para sua companheira, mãe de seus filhos e o grande amor de sua vida.Inacreditável!

 Seus olhos se cruzaram por um instante e Amália o abraçou apertado:

      — Vidigal, esse Bruno pode ser maravilhoso, mas ninguém supera o seu charme, meu amor. Pena que está indo embora...

— Amália, nós temos tanta coisa em comum. Uma vida de verdade e merecemos investir na nossa história. Que se explodam os “Barbosa”, os “Bezerra”, os Silva...O meu romance é com você.

—Que lindas palavras. Parece cena de novela! Pode me dar outra chance, meu maravilhoso?

        Foi quando o maridão não se conformou em perder sua esposa amada, assim, de uma maneira tão banal. Agarrou Amália com tudo e lhe atirou no assoalho, lhe pregando um beijo de língua.

—Que final feliz, Vidigal! Estou em choque.

    Rolaram no tapete até o dia clarear. Vidigal estreou ali mesmo uma longa metragem produzida especialmente para maiores de 18 anos e a própria Amália lhe aplaudiu de pé.

—Vidigal, que emoção. Ainda ao vivo e à cores! Essa novela vale a pena ver de novo! – suspirava feliz da vida — Quero bis e sem comercial, meu galã!

 A atuação de Vidigal foi um verdadeiro sucesso de bilheteria e agora, todas as noites,ela pedia reprise. Com muito talento e elegância ele levantou o ibope e detonou de vez com a concorrência. Bravo!

 




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